26 novembro, 2009

Eleanor Rigby

All The Lonely People

Where do they all come from ?

The Beatles


O telefone ainda é aqueles de disco que você tem de girar para discar os números. Acho que é dai que vem a expressão discar. O bocal do telefone esta encardido, da para ver a sujeira acumulada nos buraquinhos. No entanto, não sinto vontade de limpar.
Da minha carteira de couro marrom, uma hipocrisia para um vegetariano, que também serve de agenda, eu tiro um papel amassado com um telefone, assim como já fiz inúmeras vezes antes. Giro o disco do telefone e espero que ele volte a posição inicial para poder gira-lo novamente, e faço isso mais sete vezes. Deve ser o suficiente. Espero os toques necessários até que alguém atenda, mas minha paciência acaba e eu ponho o fone no gancho.
Na rádio toca Eleanor Rigby e enquanto os violinos tocam estridentemente eu me pergunto de onde vem tantos solitários, a aonde eles pertencem. Tiro o telefone do gancho e faço todo o ritual novamente. Parece algo eterno. Desta vez vou esperar dar cinco toques e esse é o máximo que eu me digno a esperar. Não mais do que isso. No terceiro atendem.

A voz é de um homem e eu logo penso em alguém barbudo, barba e cabelo já brancos. Deveria me sentir ameaçado ? Apesar de não conhecê-lo sei quem é, sei que suas intenções são boas mas não para comigo. Ele me odeia, eu sei disso. O telefone deveria unir o mundo mas agora aquele homem é uma barreira que me impede de conversar com ela. Eu desligo.
É outono e lá fora faz frio. O sol ilumina pela janela e me aquece. Estou sentado no pé da cama com o telefone à minha frente, no corpo apenas calças e uma regata. Eu deveria sair, dar uma volta. O apartamento me cansa, fazem cinco dias que não saio. Os restos de maçã se acumulam na pia da cozinha junto com as cascas de banana. No entanto, não sinto vontade de limpar. Uma hora ou outra eu vou ter de sair. O estoque de frutas esta acabando e comer miojo é algo que jurei nunca mais fazer.
Minhas intenções também são boas, por que eu tenho de ter medo ? Pego o telefone mais uma vez e agora vou buscar no fundo da minha alma a coragem de ir até o final. Toca uma vez, na segundo ele atende. Ouço o bocal do telefone roçar em sua barba. Não sei como mas consegui juntar forças e pedir para falar com ela. Ele não deve ter percebido quem era pois disse "Só um instante" e se foi. Nada do que temer.
Enquanto esperava fiquei pensando em quando era criança. De passear na Rua XV com meus pais me balançando pelo braço, de como aquilo era a coisa mais esperada da semana. Agora não posso mais brincar disso. Nunca mais poderei. Talvez algum dia venha a balançar alguém. Uma pessoa a quem eu possa chamar de filho.

Nós nos conhecemos alguns anos atrás mas foi só nos últimos meses que a relação ficou mais intensa. Foi no Natal que trocamos o primeiro beijo e por um bom tempo não nos largamos. Acabou quando ela soube que estava grávida. Minha alegria não podia ser maior. Ela, no entanto, passou a me odiar como se eu tivesse destruído sua vida.
Sua vida se resumia a frequentar a faculdade, ir às aulas de Francês e sair com as amigas. De certa forma destruí sua vida sim. Com seus cinco meses de gravidez ela já abandonou a faculdade, suas amigas a abandonaram e ela agora vive trancada em casa, chorando e sem o consolo de ninguém. Seu pai, se fosse uma pessoa decente e generosa, talvez a consolasse, mas às vezes penso que ele a odeia tanto quanto a mim.

Algun tempo depois de passear pela Rua XV pela última vez, meus pais morreram. Foi algo muito de repente, um acidente na estrada. Eles íam para Porto Alegre de ônibus e um caminhão vinha de Porto Alegre entregar mercadoria. Meu tio me criou desde então. Quando soube que ela estava grávida dei um sorriso de canto de boca. Era o máximo que eu podia fazer com ela charando daquele jeito. Tentei consolá-la mas ela me rechassou e eu fui para casa sem poder conter minha alegria. No caminho pensei em meus pais e na falta que eles haviam feito até agora, agora que eu seria pai.
A alegria acabou quando ela disse que iria tirar o bebê. Seria mais um caminhão em minha vida. Seu pai a dissuadiu mas ela jurou que eu nunca iria ver a criança. Eu nunca iria ver a criança. Agora eu telefono para ela pela última vez. Cansei de lutar para ser pai. Cansei de tudo. A clausura dela também é a minha. Ligo agora para dizer que ela pode fazer o que quiser, eu já não me importo mais. Nas últimas noite me peguei pensando na alegria que teria se ela morresse no parto. A criança também. Me odiei por pensar dessa forma, mas é a única coisa que consigo dizer para ela quando atendeu o telefone. Não esperei para ouvir a reação dela. Desliguei com a mesma covardia com que liguei. Agora saio de casa sem saber para onde ir, pois não sei de onde vem tantos solitário nem a aonde nós pertencemos



17 novembro, 2009

19 Anos

So nobody ever told you baby

How it was gonna be…

Gun´s and Roses

Não, ninguém lhe havia dito. Agora ela se encontra em casa, sentada na mesa da cozinha, um caneco de café à sua frente, a solidão ao seu redor. Completou ontem seus vinte anos. Da adolescência que acaba ela guarda em si as cicatrizes de acne no rosto e a certeza de que essa foi uma etapa que passou e ela não aproveitou. Não teve namoros efêmeros, não foi a bares com amigo, diabos, nunca nem os teve.

Se levanta e vai até a geladeira onde resta um pedaço de bolo da noite anterior. Muito marshmallow e frutas, muito creme e velas, mas poucos para comemorar, somente seus pais. Pouco também a ser comemorado.

Na cadeira a sua frente se encontra o tédio, dentro do peito a angústia. No telefone uma esperança remota, a espera de algo, não se sabe o que.

Levanta e se serve de mais um caneco de café, desta vez com leite. No ano passado as coisas foram diferentes. A Júlia estava na festa e um pouco de alegria se encontrava lá. Dali as duas foram para o bar e trocaram o primeiro beijo. Antes daquilo tinham sido só expectativas, sonhos.

As duas se conheceram pouco tempo antes. Júlia era secretária de seu pai, cinco anos mais velha e tocava piano. Começou a ensinar piano para ela por insistência do pai que queira tirar sua filha da modorra que se encontrava. E deu certo. Naqueles três meses de aula que antecederam seu aniversário de dezenove anos as coisas foram diferentes. Carla, que agora se lembra daquela época enquanto olha fixamente para a xícara de café, foi uma pessoa diferente naqueles breves três meses.

No começo tinha aversão ao piano. O piano lhe lembrava os encontros de família em que sua avó, agora falecida, tocava horas e horas suas músicas “clássicas” enquanto todos ficavam a sua volta fingindo admiração e tentando esconder os bocejos. Nesses encontros seus primos levavam seus pares. Carla nunca chegou a levar nem um amigo, não os tinha.

Mas Júlia lhe mostrou que nem só de “músicas de vovó” vivia o piano e ensinou a tocar Easy do Faith No More. Era uma música fácil e até Carla que se considerava uma medíocre em tudo conseguiu tocar com precisão.

Nasceu aí um coleguismo que virou amizade. Terças e quintas depois de seu expediente no escritório, Júlia ia para casa de seu chefe e ensinava Carla durante dez minutos. Depois disso as duas se sentavam diante do piano enquanto conversavam e Júlia tocava algo. O pai de Carla bem sabia que ela não estava aprendendo nada, nem se esforçava, mas sabia que aqueles encontros faziam bem para filha. Desde que havia saído do segundo grau e decidido tirar umas férias antes de pensar em faculdade, Carla não acordava cedo, não se importava com nada exceto seu aparelho de som.

Uma coisa que Júlia teve muito êxito foi em ensinar uns tipos diferentes de música para Carla. Esta última deixou de ouvir tanto Radiohead e músicas tristes e passou para o pop, músicas indies e afins. Também conseguiu ensinar Carla, em apenas um dia, a tocar parabéns para você que no dia seguinte tocaria diante dos pais e de Júlia durante sua festa de dezenove anos.

Fazia uma semana que ela não dormia. Faltava pouco para seu aniversário e ela ainda tinha a intenção de seguir com seu plano: se declarar para Júlia e torná-la algo a mais que amiga. Ela tinha a impressão que seu pai pressentia seus planos e que de alguma forma apoiava. Sua mãe lhe olhava estranho, talvez coincidência. Mas tudo o que lhe importava era a reação de sua amiga. Passava noites em claro não pelo medo e sim pela expectativa, pelo desejo. Sim, um pouco de medo também. Nunca tinha feito aquilo, nem com um rapaz.

A noite da festa chegou, estavam todos os quatro empolgados, principalmente Carla. O bolo com marshmallow, creme frutas e velas estava sobre a mesa. Seria uma comemoração breve pois as moças tinham que sair para a estréia de Carla em um bar. Estava bem vestida, perfumada, maquiada. Todos estranharam aquela preparação toda, mas afinal, era sua primeira vez.

Saíram as dez e foram para um bar. Estava lotado. Ficaram na fila por um tempo, que por sorte passou logo e, ao atravessar a porta, Carla era alguém diferente. Dançou, bebeu pouco mas bebeu, flertou com rapazes de forma inocente sobre os olhares orgulhosos de Júlia.

Até que a beijou. A princípio Júlia retribuiu, as duas ficaram naquele momento de cumplicidade por um bom tempo. Olharam nos olhos uma da outra. Carla em puro êxtase, Júlia em assombro. Esta última não conseguiu atinar nada, esquivou a tentativa de um segundo beijo e se foi.

Carla se quedou sozinha na pista do bar. Esperava por algo como aquilo, mas não esperava que Júlia não voltasse a dar mais aulas e confabular por horas durante a noite.

Seu pai parecia saber de tudo e a tentou consolar. Sua mãe engoliu o orgulho e fez o mesmo. Uma semana depois e a sua rotina tinha voltado a ser a mesma de antes: acordar tarde; não fazer nada; dormir cedo.

Não, ninguém lhe havia dito como seria. Ela aprendeu da maneira mais difícil. Os dedos de Júlia nas teclas brancas e pretas ainda povoam sua mente. Enquanto olha para a xícara e pensa, da um pequeno sorriso. Foi um bom aniversário no final das contas.



12 novembro, 2009

2016

Don’t Let Me Down

The Beatles

Lá fora faz calor, mas as nuvens começam a encobrir e céu anunciando chuva. O condomínio com seus trinta blocos e sua quadra de esportes no centro estão vazios. Todos que não estão trabalhando se encontram em casa, todos assistindo o mesmo canal. Em instantes será anunciada a sede das Olimpíadas de 2016. Em algumas janelas pode-se ver bandeiras do Brasil estendidas e em alguns momentos se ouvem buzinas soando em algum lugar.

Ele também se encontra em casa. Está sentado em um sofá de três lugares com sua TV de plasma ligada no canal do anúncio. São 13:29 e a qualquer momento será feito o pronunciamento. Mas sua mente não está ali. Esta na viagem que fará dentro de meses.

Talvez algum dia consiga, mas no momento não, dizer o que o fez ter aquela idéia da viagem. Nas suas aulas de Espanhol as pessoas diziam o quanto era barato estudar na Argentina, das vantagens, dos passeios que se pode fazer. Mas o ponto que mais lhe chamou a atenção é que todos aqueles que estudavam com ele eram viajados, tinham trazido cultura de outros países, de outros lugares. Até ele admite que foi um pouco de inveja que o fez querer viajar, mas não somente.

Ontem ele terminou mais um livro e dele surgiu mais uma hipótese: viajar para terminar de nascer. Sim, Buenos Aires seria sua casca do ovo e ele teria de quebrar sozinho. Ninguém estaria por perto. Essa idéia lhe dava calafrios. Não demorou tanto assim, já agora ele sabe que a viagem é mais que uma aventura, mais que experiências culturais e lazer. É uma viagem que vai determinar como será sua vida daqui em diante.

Na TV se vêem fogos no dia claro, as pessoas se abraçam, estouram espumantes. O Brasil vai sediar as olimpíadas. Ele até poderia colocar um ponto de exclamação mas não esta eufórico. Deitado no sofá se encontra em um estado de modorra, pré sesta. Não sabe dizer se aquilo é um princípio de sonho ou se é a realidade. Se for realidade ela está deturpada pois ele não está totalmente desperto. Ele se encontra agora nas ruas da Recoleta com diversas pessoas ao seu redor comemorando o feito. Mas que feito? Os jogos não serão aqui. O que tantos “hermanos” comemoram, com camisas da seleção Argentina e bandeiras tremulando no ar?

Uma voz mais alta na TV o desperta por completo. É o Presidente que agora faz um pronunciamento.

Ele se levanta e vai lavar o rosto no banheiro. Sabe que após lavar o rosto se sentira melhor, mais animado, pronto para os preparativos. Não foi dito ainda, mas os preparativos da viagem começam hoje. Ele já recebeu seus papéis do colégio onde vai estudar, sabe onde vai dormir e pode começar os preparativos.

Na mesa da sala se encontram alguns guias, panfletos que ganhou na agência e um computador. Pesquisa intensamente, alternando os guias com a Internet. Sabe agora o que fazer nos primeiros dez dias. Viu tantas fotos e mapas que parece ser íntimo da cidade.

Mas ele sabe que não são esses os preparativos que tem de fazer. “Para acabar de nascer” – pensa em tom professoral – “é preciso ter o corpo pronto”. Para quebrar a casca tem de estar com o corpo forte, pois não será fácil. Parar de fumar foi o primeiro passo, mais difícil do que todos imaginam, mas ele conseguiu. Mas ainda não consegue acordar cedo. Não consegue parar de depender dos outros. Três meses parece bastante tempo, mas talvez não seja suficiente. Sabe cozinhar, mas não cozinha. Sabe o que deve fazer, mas não faz.

O roteiro está quase pronto, memorizado. O espanhol está afiado, mas será o suficiente? Não é.

Só os Beatles o podem ajudar. Talvez por eles terem milhares de músicas e outras dezenas de milhares de refrões, os Beatles são sempre a resposta para problemas. Ele corre o dedo pelo seu iPod em busca de uma música que pode servir. Sabe que vai achar. Don´t Let me Down. Não, ele não pode decepcionar a si mesmo. Simplesmente não pode e não vai. Vai andar pela Recoleta, por Córdoba, pelas cidades vizinhas, vai visitar o El Ateneo e tudo isso de cabeça erguida, firme em seus propósitos e socando a casca o máximo que puder.

A música o deixa extasiado. Agora na TV uma apresentadora diz coisas (ele não ouve pois colocou a TV no mudo) propondo um brinde. Lendo os lábios dela ele consegue entender: “Agora um brinde para aqueles que tem coragem, que tem o poder sobrenatural de ver o problema e agir sobre eles, quem vêem as dificuldades mas que são mais fortes que ela. Para todos esses, um brinde”. Ele ergue seu copo de Coca e agora a voz dos Beatles dizem (imploram?) Don´t Let me Down.


Stories That Rock (And Roll)

A muito tempo ouço música com fone de ouvido e minha mãe e amigos dizem que logo vou estar surdo. Como minha mãe sempre adivinha que vai chover, mesmo que o sol esteja alto e nenhuma nuvem se mostre, eu passei a acreditar nisso. E da mesma forma como nunca dou ouvidos aos seus conselhos para levar um guarda-chuva, não paro de usar meu MP4.

Ouço basicamente Rock. Não sou grande entendedor de música, as que escuto são basicamente sugeridas pelo Ricardo “Emo” Neneve e pelo meu irmão Guilherme. Este me apresentou basicamente o mundo do Rock e o Emo ao The Kooks, e a ambos sou muito grato. E foi ouvindo ao The Kooks com fone enquanto passava aspirador é que decidi escrever esse blog.

Aqui postarei contos de minha autoria que tem a ver com música. Sintam-se à vontade de visitar sempre, pedir sua música favorita (vale até um “Toca Raul”) e eu vejo o que posso fazer. E não se esqueçam de me seguir na coluna ao lado.

Abraços